Blog

Na Eduvem, acreditamos que grandes parcerias são construídas por meio do diálogo, da confiança e da proximidade.

A Nuvem Está Secando o Mundo: Por que Cidades Estão Expulsando Datacenters

Introdução

A revolução digital trouxe avanços impensáveis, mas carrega um custo ambiental muitas vezes negligenciado. Entre os vilões invisíveis dessa equação estão os datacenters — estruturas essenciais para armazenar, processar e distribuir dados digitais. Embora sejam cruciais para a operação de serviços em nuvem, inteligência artificial, redes sociais e e-commerce, seu impacto sobre recursos naturais, especialmente a água, começa a alarmar autoridades e comunidades.

Vários municípios ao redor do mundo começaram a barrar ou até expulsar projetos de datacenters. A razão? O insaciável apetite por água dessas instalações, especialmente para manter seus servidores resfriados. Em um planeta que enfrenta crises hídricas cada vez mais frequentes, a convivência entre infraestrutura digital e segurança hídrica está sob ameaça.

O consumo de água dos datacenters: um gigante invisível

A maioria das pessoas associa o consumo de água a setores como agricultura e indústria, mas os datacenters estão rapidamente se tornando grandes consumidores. Para manter os servidores em temperaturas ideais e evitar superaquecimento, esses centros utilizam sistemas complexos de refrigeração — muitos dos quais demandam grandes volumes de água.

Quanto consome um datacenter?

De acordo com um estudo publicado pelo Uptime Institute, um datacenter médio pode consumir entre 1 e 5 milhões de litros de água por dia. Para efeito de comparação, isso equivale ao consumo diário de uma cidade com mais de 10 mil habitantes. Em regiões já afetadas por secas ou escassez hídrica, esse volume se torna insustentável.

Além disso, a tendência global de migração de dados para a nuvem e a explosão de ferramentas de IA, como o ChatGPT, vêm aumentando ainda mais a pressão sobre esses sistemas.

Casos reais: cidades que barraram datacenters

1. Mesa, Arizona (EUA)

Em 2022, a cidade de Mesa, no desértico estado do Arizona, impediu a construção de um novo datacenter da Meta (Facebook). A justificativa foi clara: o projeto representava um risco significativo ao abastecimento de água da cidade. Com temperaturas elevadas e chuvas escassas, cada litro conta.

2. Amsterdã e Haarlemmermeer (Holanda)

A Holanda, conhecida por seu compromisso com a sustentabilidade, suspendeu em 2019 a instalação de novos datacenters nas cidades de Amsterdã e Haarlemmermeer. O motivo não foi apenas o uso excessivo de energia, mas também o alto consumo de água e o impacto no planejamento urbano.

3. Chile

Em Santiago, onde a escassez hídrica se agravou nos últimos anos, organizações ambientais questionam fortemente os investimentos em datacenters por empresas como Google e Microsoft. As discussões giram em torno da sustentabilidade hídrica em um dos países mais afetados por secas recorrentes na América Latina.

A ciência por trás da refrigeração dos datacenters

Os datacenters operam 24/7, processando milhões de operações por segundo. Isso gera calor — e muito. Para manter os servidores em operação segura, é preciso dissipar esse calor. As soluções mais comuns envolvem:

  • Resfriamento evaporativo: utiliza torres de resfriamento com água, que evapora e reduz a temperatura.
  • Chillers com água gelada: sistemas que fazem circular água resfriada para manter a temperatura ambiente.
  • Ar condicionado industrial: menos eficiente em termos energéticos e mais comum em datacenters antigos.

Segundo artigo publicado na Nature Sustainability, sistemas evaporativos são até 30% mais eficientes energeticamente, mas podem consumir até 400 mil litros de água por dia, dependendo do tamanho do centro de dados.

O paradoxo digital da sustentabilidade

É irônico que datacenters, infraestrutura fundamental para empresas que promovem ESG (Environmental, Social and Governance), estejam contribuindo para crises ambientais. Empresas de tecnologia frequentemente anunciam metas de carbono zero, mas negligenciam seu impacto hídrico.

A pesquisa “Thirsty for data” (2023), conduzida pela Northwestern University, aponta que o impacto hídrico da inteligência artificial aumentará até 30% em cinco anos se nada for feito para mitigar o uso de água. O paradoxo é evidente: usamos IA para prever mudanças climáticas, mas o treinamento desses modelos exige milhares de litros de água.

Alternativas sustentáveis estão surgindo?

Felizmente, sim. Grandes empresas e centros de pesquisa estão desenvolvendo alternativas mais sustentáveis:

1. Refrigeração líquida por imersão

Nesse modelo, os servidores ficam imersos em um líquido dielétrico (não condutor). A troca de calor ocorre diretamente, eliminando a necessidade de grandes volumes de água.

2. Uso de água reciclada

Datacenters em regiões secas estão adotando sistemas de reutilização de água, captando águas cinzas (como as de lavagem) ou pluviais para processos de resfriamento.

3. Instalações em locais frios

Empresas como a Google têm optado por construir datacenters em regiões frias, como Finlândia e Suécia, onde a temperatura ambiente contribui naturalmente para o resfriamento.

4. Resfriamento com ar externo

Alguns datacenters usam ventilação com ar externo em climas mais amenos, reduzindo drasticamente o uso de água e energia.

A pressão das comunidades e governos locais

A consciência ambiental e a pressão da sociedade civil têm sido fundamentais para essa mudança. O ativismo local, a divulgação de dados de consumo e a exigência de transparência têm colocado empresas contra a parede.

Governos municipais, por sua vez, estão exigindo relatórios ambientais mais rígidos, avaliação de impacto hídrico e limites de consumo. Em muitos casos, estão oferecendo incentivos apenas para empresas que adotam tecnologias verdes.

O futuro dos datacenters: mais nuvem, menos água?

É provável que a demanda por datacenters continue crescendo. Com a popularização do 5G, a explosão de vídeos em alta definição, realidade aumentada e IA generativa, o volume de dados nunca foi tão alto.

Por isso, será necessário um esforço conjunto entre empresas, governos e sociedade para encontrar um equilíbrio entre avanço tecnológico e preservação ambiental.

Algumas iniciativas promissoras incluem:

  • Datacenters submarinos (como os testados pela Microsoft);
  • Modelagem digital para simular impacto ambiental antes da construção;
  • Créditos hídricos, semelhantes aos de carbono;
  • Protocolos de eficiência hídrica incluídos em certificações como LEED.

Conclusão: a era digital não pode secar o planeta

A presença de datacenters nas cidades é um reflexo da digitalização global, mas seu impacto hídrico precisa ser repensado. A tecnologia deve evoluir, sim, mas não à custa de recursos essenciais à vida. Ignorar esse debate é comprometer a sustentabilidade do próprio ecossistema digital.

É hora de colocarmos o uso de água na equação da transformação digital. Afinal, um futuro inteligente precisa ser também um futuro responsável

Experiência Inovadora em Aprendizagem Digital

Transforme conhecimento em experiências que engajam, desenvolvem competências e acompanham a evolução do seu negócio.