Introdução: Por que a terminologia importa?
A linguagem molda o pensamento. E, no campo da gestão de riscos, isso é ainda mais verdadeiro. Termos mal definidos ou ambíguos podem gerar interpretações erradas, comprometer decisões estratégicas e expor organizações a falhas evitáveis. Foi com esse entendimento que a ISO decidiu atualizar o Guia 73, substituindo-o pela nova ISO 31073:2022, alinhada às mudanças do mundo corporativo e aos avanços da gestão de riscos.
O que era o ISO Guide 73?
O ISO Guide 73 era um documento de referência internacional que estabelecia uma linguagem comum sobre gestão de riscos. Seu objetivo era padronizar termos e definições usados em outras normas, como a ISO 31000.
Apesar de útil, o guia não tinha força normativa. Era considerado um “guia técnico”, com pouco peso em auditorias ou certificações. Isso mudou com a ISO 31073.
O que é a ISO 31073?
A nova ISO 31073:2022 é uma norma oficial publicada pela ISO (International Organization for Standardization) com força normativa, substituindo o antigo guia. Ela fornece definições padronizadas e harmonizadas para os principais termos usados em gestão de riscos.
Mais do que uma simples atualização de vocabulário, a ISO 31073 representa uma mudança de paradigma: ela fortalece a governança corporativa ao exigir que todos falem a mesma linguagem quando o assunto é risco.
Por que a mudança foi necessária?
A gestão de riscos evoluiu muito nas últimas décadas. O mundo corporativo passou por:
- Adoção massiva de tecnologias digitais.
- Aumento da complexidade regulatória.
- Crescimento do ESG como critério de avaliação.
- Pandemias, crises globais e ciberameaças.
Esse novo contexto exigia terminologia mais robusta, precisa e atualizada. O ISO Guide 73 já não dava conta dessa nova realidade. A ISO 31073 vem justamente suprir essa lacuna.
As principais mudanças da ISO 31073
A ISO 31073 não apenas atualiza conceitos, mas expande a terminologia com novos termos e revisões críticas. Abaixo estão os destaques:
1. Ampliação do glossário.
A nova norma passa a incluir mais de 45 termos, muitos deles ausentes no ISO Guide 73. Entram em cena expressões como:
- Risco sistêmico.
- Risco residual.
- Risco inerente.
- Apetite ao risco (Risk Appetite).
- Tolerância ao risco (Risk Tolerance).
- Capacidade de risco (Risk Capacity).
2. Clareza conceitual.
Termos que antes eram usados de forma intercambiável agora possuem definições claras e exclusivas. Por exemplo:
- Risco é definido como o “efeito da incerteza nos objetivos”.
- Conseqüência refere-se aos resultados potenciais da materialização do risco.
- Probabilidade é explicitamente distinguida de frequência.
3. Alinhamento com a ISO 31000.
A ISO 31073 está totalmente alinhada com a ISO 31000, a principal norma internacional de gestão de riscos. Isso garante consistência entre conceitos e práticas.
Impacto da ISO 31073 na prática organizacional
A adoção da nova terminologia traz impactos concretos:
✅ Melhoria na comunicação.
Com um vocabulário uniforme, diferentes áreas da empresa — jurídico, financeiro, TI, operações — passam a falar a mesma língua.
✅ Auditorias mais eficazes.
Auditores internos e externos agora têm uma base normativa comum para avaliar processos, controles e indicadores de risco.
✅ Alinhamento com padrões globais.
Empresas que operam internacionalmente ou buscam certificações ISO passam a estar em conformidade com os padrões mais recentes.
✅ Fortalecimento da cultura de risco.
Com uma linguagem clara e comum, é mais fácil disseminar a cultura de risco entre os colaboradores, desde o chão de fábrica até a alta gestão.
O que sua organização deve fazer agora?
1. Atualize documentos internos.
Políticas, manuais, planos de continuidade, mapas de risco e treinamentos devem refletir os novos termos da ISO 31073.
2. Capacite sua equipe.
Promova workshops ou cursos internos sobre a nova norma. A ISO 31073 deve ser conhecida e compreendida por todos os envolvidos com risco.
3. Revise auditorias e indicadores.
Adapte seus checklists, matrizes de risco e indicadores para se alinharem à nova terminologia e estrutura conceitual.
4. Ajuste contratos e compliance.
Muitos contratos fazem referência direta a padrões da ISO. Atualizar as cláusulas contratuais e políticas de compliance pode evitar problemas futuros.
A importância científica da normalização terminológica
A terminologia não é apenas uma questão linguística, mas também científica. Um estudo publicado no Journal of Risk Research mostra que a ambiguidade terminológica pode aumentar em até 30% os erros de decisão em comitês de risco.
Além disso, segundo a ISO/IEC Guide 2, “a clareza terminológica é essencial para a eficiência da normalização internacional”. Ou seja, padronizar o vocabulário é essencial para garantir que os processos sigam um padrão confiável.
E se eu continuar usando o ISO Guide 73?
Manter o uso da terminologia do ISO Guide 73 pode trazer sérias consequências:
- Não conformidade com normas mais recentes.
- Perda de credibilidade em auditorias.
- Incompatibilidade com certificações de fornecedores e clientes.
- Risco legal em contratos com cláusulas atualizadas.
O ISO Guide 73 está obsoleto. A ISO 31073 é agora a referência internacional válida e reconhecida.
Conclusão: Atualize sua linguagem, atualize sua gestão
Adotar a ISO 31073:2022 não é apenas uma questão de atualização documental, mas de evolução estratégica. Em um mundo onde riscos são cada vez mais complexos, transversais e sistêmicos, usar a terminologia correta pode ser a diferença entre a prevenção e o desastre.
Empresas resilientes, inovadoras e seguras são aquelas que não negligenciam os detalhes — e o vocabulário de risco é um dos mais importantes.
Fontes Científicas e Técnicas:
- International Organization for Standardization. ISO 31073:2022 – Risk Management – Vocabulary.
- ISO 31000:2018 – Risk management — Guidelines.
- Aven, T. (2021). “Foundational issues in risk assessment and risk management”. Risk Analysis.
- Leitch, M. (2010). “ISO 31000:2009—The new international standard on risk management”. Risk Analysis.
- ISO/IEC Guide 2:2004 – Standardization and related activities – General vocabulary.
- Journal of Risk Research. “Terminological clarity and risk perception: empirical insights” (2020).
